sábado, 8 de maio de 2010

[/* Um Conto de Fim de Mundo


"... Eu só vi o policial de pé no fim da passarela. Eu só vi a salvação em seu uniforme.
Corri para ele, desesperada.
Mãos ásperas roçaram minhas pernas e uma voz pegajosa e cheiade malícia ciciou, insidiosa...
- Carne nova!
Apavorada, fugi de outras que tentaram me agarrar, os gritos dos homens explodindo em meus ouvidos, cheios de raiva. Uma raiva realmente homicida.
- Pega! Pega! Pega!
- Me ajuda, seu moço! Me ajuda que ele quer me levar!
Ele quer me dar pros homens lá do garimpo! Foi o que ele disse, foi sim!...
O PM me empurrou com raiva e impaciência.
- Sai para lá, menina, e não cria confusão!
Encolhi-me, surpresa, apavorada. Muda de espanto.
Os homens que corriam atrás de mim e os que se amontoavam, encarapitados nas precárias palafitas, nas passarela de madeira que davam a impressão de estarem prestes a soçobrar, pararam. Entreolharam-se e, depois de um instante de perplexo silêncio, explodiram numa estrondosa gargalhada.
Divertem-se com minha perplexidade. Mais e mais homens aparecem gargalhando. Olhos de lobo, grandiosa fome nos olhos, naqueles olhos que me espreitam e cobiçam.
- Seu polícia...
- Cria confusão, menina, e eu mesmo te como no cinto!
Um dos homens que me compraram de meu pai se achega e me abraça por trás, puxando-me para a passarela de madeia. Sorri para o PM.
- Deixa que eu mesmo faço isso, Morais!
O tapa me atinge com força na nuca e me derruba de cara na lama. Gargalhadas explodem em meus ouvidos. Selvagens. Sinto-me irremediavelmente desamparada e só.
Está muito quente, mas estranhamente sinto frio, muito frio. Vontade de morrer. De não me levantar nunca mais daquela lama fedorenta e que gruda e se entranha na gente feito coisa ruim.
Mas eu me levanto e o pé do homem me atinge com raiva na barriga. Caio e sou chutada. Esparramo-me na lama. Dor aqui, dor ali, dor por todo lugar. Não pára de doer nem quando eu deixo de sentir qualquer coisa."



"Um Conto de Fim de Mundo - Cap. 11 Espanto, pag. 28 e 29. Júlio Emílio Braz."


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1 comentários.:

Jé.èH disse...

sempre que leio coisas assim fico me imaginando no lugar da vitima. =(, mas infelismente tudo isso é real .....
By. Jé.èH
http://penso-logobriso.blogspot.com/

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Aproveite.
Essa é uma das poucas
coisas que é degraça.. =P

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Dêem flores enquanto possam
apreciá-las, porque depois elas
servirão para cobrir
sepulturas..